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Publicado 12/09/2017

Mineradoras voltam à cena para investir

Mineradoras voltam à cena para investir
Passados dois anos em que ficaram mais voltadas à organização da casa, as mineradoras estão de volta ao mercado. A alavancagem já não é um problema tão grande, os custos estão mais controlados e até mesmo a perspectiva econômica de seus produtos mais importantes melhorou, com maior equilíbrio de demanda e oferta.

Para Afonso Sartorio, sócio-líder para mineração e metais da consultoria EY (ex- Ernst & Young), 2017 é um ano favorável para as commodities, o que já torna a percepção sobre suas produtoras mais positiva. Percebendo o momento, as mineradoras correm atrás de investidores e bancos para financiar um novo ciclo de crescimento - tanto orgânico quanto por fusões e aquisições.

Estudo da EY divulgado com exclusividade ao Valor mostra que as empresas do setor foram às compras no primeiro semestre, dobrando o valor das operações de fusões e aquisições no mundo, em comparação anual. O total chegou a quase US$ 28 bilhões. Só no segundo trimestre, foram US$ 14,8 bilhões, 71% a mais que igual período de 2016.

"Depois de um momento de disparada na oferta com o 'superciclo' e a demanda menor que a prevista nos últimos dois anos, vemos mais equilíbrio entre oferta e demanda, no geral", diz Sartorio. "Os projetos foram adiados ou cancelados e tivemos uma parte de desinvestimentos e consolidação de empresas de médio porte, o que contribuiu."

Com o cenário menos negativo, as mineradoras precisam de capital. Em parte, como combustível para projetos que ficaram parados e agora são viáveis. Um dos motivos é a exaustão de minas, cujas reservas precisam ser repostas.

Para se ter uma ideia, a Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo, é a única das grandes que vai apenas manter os investimentos no ano que vem. Um corte de US$ 500 milhões está previsto, mas só porque a empresa alienou o negócio de fertilizantes. Além disso, a postura menos ativa em relação às outras gigantes do setor faz sentido, já que a companhia vem de anos com largos orçamentos para colocar em operação a mina S11D no início deste ano.

No total, Vale, Rio Tinto, BHP Billiton e Anglo American preveem gastar cerca de US$ 17,4 bilhões no ano que vem; US$ 1 bilhão a mais do que em 2017.

Para esse fim e outros, inclusive o de fusões e aquisições, que as mineradoras levantaram US$ 71 bilhões no segundo trimestre deste ano - 15% a mais do que nos mesmos meses de 2016. Um dos motivos foi a troca de instrumentos de dívida por outros mais baratos, algo que acelera o processo de desalavancagem.

"As juniores [mineradoras menores], por exemplo, aumentaram a busca por financiamento", afirma Sartorio. Até o ano passado, um movimento desses não seria esperado, pois o preço da maioria das commodities estava em situação muito pior. "As captações têm ocorrido de forma muito diversificada, geograficamente e quanto aos produtos. Com a melhora da saúde financeira das mineradoras, o mercado está oferecendo dívida com termos melhores."

A consultoria prevê que o processo de diminuição do endividamento continue em 2017. Se a velocidade com que pagaram as obrigações em 2016 se repetir, a EY calcula que a alavancagem financeira - índice que relaciona dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) - do setor fique abaixo de 1 vez pela primeira vez em cinco anos.

Sobre os novos projetos que esse dinheiro pode gerar, Sartorio vê o cobre com perspectivas interessantes. Os fundamentos para o metal tornaram-se mais positivos para o investimento, após ajustes de capacidade e expectativa de maior demanda nos próximos anos. Carros elétricos, por exemplo - uma tendência que deve se intensificar até o fim da década -, seriam grandes consumidores.

Contudo, o Brasil não é protagonista, lembra o sócio da EY, porque não é tão relevante na produção do cobre. Chile e Peru, na América do Sul, têm mais oportunidades. Sartorio também cita a redução de participação da China nas operações como uma tendência recente.

O mercado de ouro, por outro lado, também deve se agitar daqui para frente - e o Brasil é protagonista. Ele também cita o nióbio - cuja maior produtora é a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) -, além da bauxita e do lítio.

Mas não é só a falta de reservas ou a menor relevância em certas commodities que deixa o país para trás. Sartorio ressalta que o mercado por aqui não está parado, mas alguns fatores restringem negócios. Entre eles, a contínua recessão, a crise política e a entrada em operação do S11D, da Vale.



Fonte: Valor Econômico