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Publicado 12/09/2017

Alto teor de impureza afeta resultado da Vale

Alto teor de impureza afeta resultado da Vale
A estratégia da Vale de substituir o minério de ferro que oferta ao mercado internacional por um novo, de maior qualidade, é a saída da companhia para restringir ao máximo os danos que a rejeição às impurezas da commodity pode causar aos resultados da mineradora.

O desconto dado a produtos com teor mais elevado de sílica, principalmente, está próximo das máximas históricas. A Vale, entretanto, quer começar a contornar essa questão já a partir deste segundo semestre, com o fechamento de minas cuja produção contém menor pureza.

Apesar da disparada da matéria-prima na China e do prêmio que os clientes estão dispostos a pagar para levar produtos de concentração mais elevada, cerca de US$ 900 milhões podem estar sendo perdidos, em bases anualizadas, por conta da maior presença de sílica, especialmente no minério dos sistemas Sul e Sudeste da Vale. Esse é o cálculo do Citi, segundo relatório divulgado durante o feriado.

Pelas contas do banco, o adicional que o mercado paga pelo produto específico da companhia de Carajás (PA) pode render cifra anual de US$ 2,1 bilhões acima do que já foi apresentado no primeiro semestre. Isso porque a commodity com teor de ferro de 65% já se encontra ao menos US$ 20 por tonelada mais cara do que a de 62%, referência do mercado transoceânico. O minério extraído no Pará tem concentração de até 66% de ferro, o que pode levar a prêmio de até US$ 30.

Mas na ponta oposta, das impurezas, a Vale tem um problema. Não sendo equacionado, pode levar à perda dos US$ 900 milhões mencionados, ou quase 40% do potencial de ganho com o material de melhor qualidade. O desconto do mercado sobre a sílica no minério é de US$ 3 a tonelada para cada ponto percentual após teor de 4,5%. Acima de 6%, o montante sobe para US$ 6.

"A atenção de investidores está focada na forte elevação de prêmio do minério de ferro nas semanas recentes", afirma o analistas Alexander Hacking, responsável pelo relatório. "Entretanto, poucos notaram os altos descontos históricos para o conteúdo de sílica. Os descontos para a alta concentração de sílica são negativos para as mineradoras brasileiras, incluindo a Vale."

A estratégia da companhia inclui o corte de 19 milhões de toneladas anuais na produção de minas dos sistemas Sul e Sudeste. Esses ativos são os que geram o minério com maior concentração de sílica. Paulatinamente, esse volume será substituído pelo do S11D, em Carajás - um dos minérios mais puros do mundo.

Na primeira teleconferência de resultados que participou, do segundo trimestre, o novo presidente da mineradora, Fabio Schvartsman, disse que essa questão já está sendo resolvida e já no terceiro trimestre será possível sentir melhora no preço de venda. "[Devemos] muito provavelmente produzir um trimestre bastante melhor do que o segundo trimestre", disse a investidores e analistas.

Além disso, a Vale informa que a mistura que realiza na Malásia e na China, do insumo que produz com outros de diferentes origens, foi padronizada e o teor de sílica não mais passa dos 5%. Mesmo com esse teto, o índice se enquadra na primeira faixa de descontos à impureza, mencionada pelo Citi no relatório.

Em 2017, cerca de 70 milhões de toneladas farão parte dessa mistura de minério na Ásia. No ano que vem, a companhia pretende misturar até 100 milhões de toneladas. Nessa mistura, dois terços do minério de ferro vêm de Carajás. O restante é proveniente de Minas Gerais.

O minério de ferro com concentração média de 62% de ferro ficou praticamente estável no mercado à vista chinês ontem, apenas com leve alta de 0,2% em Qingdao, para US$ 74,49 a tonelada, segundo a "Metal Bulletin". Por sua vez, a commodity com teor de 65% fechou próxima a US$ 96 - prêmio de US$ 22.

De acordo com Serafino Capoferri, analista do banco de investimentos Macquarie, a necessidade das usinas siderúrgicas de procurar soluções para os altos custos de produção do aço levou à penalização dos minérios com menor qualidade - principalmente depois que o carvão disparou. Os esforços da China em conter a poluição também contribuem para essa busca por matérias-primas mais eficientes.

"Entre as maiores mineradoras, a Vale ainda vende no mercado o melhor produto, em média, muito por conta do teor de ferro maior", explica Capoferri. "Em segundo lugar, vem a Rio Tinto, e em terceiro, a BHP Billiton. Além disso, a ocorrência de sílica no minério da Vale é maior do que nas outras, mas ela ganha quanto a outras impurezas, como alumina e fósforo."

Wen Li, analista que acompanha o setor pela casa de análise de dívida CreditSights, cita o "copo meio cheio". Para ele, o adicional pago pelos clientes pelo conteúdo de ferro compensa tanto que não há problema no desconto em relação ao teor de sílica.

"Eu não vejo essa questão como um ponto de preocupação, mesmo porque ela já anunciou esse ajuste de oferta de menor qualidade", afirma Li.



Fonte: Valor Econômico